terça-feira, 03/11/2026

Funk ‘petista disfarçado’ conquista a direita no Brasil com inspiração na cultura soviética; entenda sua trajetória.

A ascensão do funk “Solinho do Fora PT”, que ecoa a frase “quem ficar parado é petista disfarçado”, reflete uma curiosa e complexa interação entre a música popular brasileira e a história cultural russa.…

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A ascensão do funk “Solinho do Fora PT”, que ecoa a frase “quem ficar parado é petista disfarçado”, reflete uma curiosa e complexa interação entre a música popular brasileira e a história cultural russa. Esta canção, que ganhou notoriedade durante os comícios de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição de 2026, tem suas raízes em uma melodia que já atravessou séculos e continentes. Originalmente composta no século 19, a música é baseada no poema “Korobeiniki”, de Nikolai Nekrasov, que retrata a vida de um vendedor ambulante na Rússia imperial.

O que começou como um canto folclórico russo evoluiu ao longo do tempo, sendo incorporado ao repertório do coro do Exército Soviético na década de 1980 e, posteriormente, se tornando o tema icônico do famoso jogo Tetris, lançado em 1989. Essa trajetória é emblemática, mostrando como uma melodia pode transcender seu contexto original e se adaptar a diferentes realidades culturais. O arranjo de Hirokazu Tanaka para o Game Boy fez com que “Korobeiniki” se tornasse um sucesso mundial, muito antes de chegar ao funk carioca.

O funk, que se tornou a trilha sonora das campanhas de direita em 2026, reaproveitou esta melodia de forma criativa, inserindo letras que atacam a esquerda e celebram a vitória política de seus representantes. A popularidade do “Solinho do Fora PT” disparou após Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, novos deputados de São Paulo, celebraram suas vitórias dançando ao som dela. O ritmo animado rapidamente se espalhou pelos “bloquinhos do 22” e eventos políticos, tornando-se um símbolo da nova era conservadora.

Entretanto, essa apropriação da música russa suscita debates sobre a hipocrisia de figuras políticas que frequentemente deslegitimam a cultura do funk, associando-a a problemas sociais. Pavanato, que já se posicionou contra o funk em outras ocasiões, agora utiliza o gênero como ferramenta de campanha, afirmando que o problema reside nas letras, não no ritmo. Essa contradição ressalta a complexidade do cenário político brasileiro, onde a cultura popular é frequentemente seletivamente adotada conforme a conveniência dos grupos em questão.

Ao final, o que se observa é uma intersecção fascinante entre tradição, modernidade e política, onde uma canção que reverbera desde o século 19 na Rússia agora embala as aspirações da direita brasileira, mostrando que a música, independente de sua origem, continua a ser um poderoso veículo de expressão e mobilização social.